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27/09/2007
15:01
Um encontro com Realidade
(foto da revista Realidade, edição de 1967)
Na tarde de ontem, eu e minha colega Adriana de Sá paramos em um sebo de São Luís (MA) para olharmos alguns livros antigos. Dentre inúmeros volumes sobre jornalismo, política, cultura, literatura e outras áreas do conhecimento nos deparamos com uma relíquia: uma edição da revista Realidade, do ano de 1967.
Na verdade, a primeira a enxergar Realidade entre o mundaréu de livros e revistas antigos foi a Adriana. Ela começou a folheá-la despretensiosamente quando, de repente, me chamou para ver uma matéria sobre os Beatles, mas precisamente sobre o empresário da banda inglesa que contava sobre a receita de sucesso do grupo.
À medida que folheávamos Realidade fazíamos comparações sobre a estilística dos textos jornalísticos daquela época e de agora. Também comentamos sobre os anúncios e propagandas da década de 60. Entretanto, o mais intrigante nisso tudo era o fato daquela edição completar 40 anos, agora no mês de outubro. Na verdade, estávamos maravilhadas com o “nosso achado”, parecíamos até duas arqueólogas do jornalismo!
A manchete da capa era sobre o preconceito nos Estados Unidos e Brasil. A reportagem, de autoria dos jornalistas Narciso Kalili e Odacir de Mattos, começava assim:
"Vivi tôda a infância e adolescência ouvindo e aprendendo que o negro era um homem inferior. Na escola, em casa, na rua, meu pais, os professores e meus amigos sempre atribuíram aos negros maus sentimentos e atitudes negativas. Usavam os negros para coagir as crianças a não fazer travessuras. Ouvi muitas vezes a ameaça:
- Olha que eu chamo o prêto pra te levar!"
É isso mesmo! Na primeira pessoa do singular e fugindo completamente ao rígido lide visto hoje na maioria das revistas e jornais do Brasil que, por sua vez, seguem o modelo-padrão das publicações norte-americanas e com cheiro do mofo do Positivismo que ainda tem muita influência sobre o nosso fazer jornalístico.
Na reportagem de Realidade se percebia vida e impressões de mundo de quem escreveu a matéria, um verdadeiro favor à história recente do nosso país e do próprio jornalismo!
Fiz algumas pesquisas via Google e fiquei sabendo que o fato que deu origem à capa de Realidade na edição de 1967, aconteceu naquele mesmo ano, em outubro, no centro de São Paulo, quando um casal, ele negro e ela branca, chamou a atenção das pessoas que passavam pelo local.
Dizem que Narciso Kalili (branco) e Odacir de Mattos (negro) simularam a mesma cena em seis capitais do país para comprovar, pela reação e comentários das pessoas, que o preconceito racial não era coisa só de americanos, mas de brasileiros também!
Para coroar nosso “achado” compramos a revista, ao preço de R$ 10,00 (claro que ela vale mais, tanto pelo valor de relíquia como o de pesquisa!), e saímos do sebo comentando o fato do jornalista ser um verdadeiro “contador” da História! A edição está bem guardada e será, com todo certeza, uma bela fonte de pesquisa para nos duas, como jornalistas e como fãs do bom e velho jornalismo investigativo!
Léa Martins | comentários(3
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26/09/2007
10:45 Nihil novi

De onde vem o nosso “indignar” se a gente não aprendeu nada sobre ele na escola? De onde vem nossa revolta com o statu quo da nação se à nossa volta tudo está acomodado e oficialmente seguro? Quem nos ensinou a reclamar das injustiças se, aparentemente, vivemos na injustiça? Por que cobramos atitudes de ética, de respeito à vida, de hombridade e honestidade se já nascemos em meio aos antônimos de todas essas coisas?
Onde está a origem desses sentimentos inconformados? E por que simplesmente não nos acostumamos com o argumentum ad nauseam dos detentores do poder e deixamos logo de lutar por uma ordo salutis que ninguém sabe de onde surgirá?
A res publica (sic) neste país só existe de fato quando pagamos impostos. Aos utilizar os serviços do Estado sabemos direitinho que nada é do povo e sim das instituições que dizem representar o povo, mas que na verdade só defendem os próprios interresses. Caia a ficha, então! Somos, eu e você, povo, persona non grata diante dos poderes que regem o País. Que frase mais dantesca e mais verdadeira!
Abra bem os olhos, você que é brasileiro, esteja com eles bem arregalados, pois o nosso ad kalendas graças, ou melhor, o dia da expurgação das corrupções sociais, políticas, econômicas e até esportivas dessa Pátria Amada parece nunca chegará.
Mas ao abrir bem os teus olhos, brasileiro, talvez você me pergunte sobre a razão de empregar tantas expressões latinas nesse texto. Responderei que busco uma nova fórmula de palavras que traduzam o meu escândalo diante dos escarcéus desse meu Brasil.
Mas você, brasileiro, eu sei, não quer mais saber de escândalos. Cansou deles. Das noticias sobre os tais. Mas eu digo: sapere aude! Sim, ouse saber! Ouse falar! Mas não esqueça que “quem pensa por si mesmo é livre e ser livre é coisa muito séria”, como diria o Renato Russo, de quem uso trechos de músicas constantemente e quem sempre tem “algo” importante para nos dizer, e para quem eu uso uma frase bíblica que diz “e mesmo depois de morto ainda fala”!
Mas apesar dos apesares, ainda fico com o mutatis mutandis! Afinal, o tempus regit actum e amanhã, você, e quem sabe eu também, estejamos falando de coisas novas e até de mudanças desse statu quo!
Léa Martins | comentários(2
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21/09/2007
15:13 Susto na folha de papel
Nossos corpos não comportam a multidão de sentimentos nossos de cada dia. Foi a conclusão a que cheguei diante de tantas emoções que se vive minuto a minuto nesse mundo de louco em que se tornou o Planeta Terra.
As emoções cortam meu eu. Estão no dedão do pé, na cabeça, por todos os lados. Explodem que nem bolha de sabão. Não sou apta para contar o quanto sou capaz de sentir. Neste momento exato, só sei que meus sentimentos são mais do posso sentir.
Não há metáforas, nem qualquer outra figura de linguagem que aceite a ingrata missão de ficar no lugar comum da não descrição inexata de tantas e impalpáveis emoções.
E o meu imbróglio emocional é o seguinte: não sei choro ou rio. Seria mais fácil escolher, se rio ou se mareio! Às vezes fico com tanta raiva da minha impotência covarde de sentimentos em vão que até a ponta da caneta quase pira, neurótica, pela profusão das minhas emoções.
À medida que escrevo, a folha de papel se assusta. Nessa hora, ela é testemunha de meu crime de escrita! Qual testemunha o quê?! Ela não entende, nem suspeita que a faço minha cúmplice! Portanto, ela será minha co-parte e em penas, não de escritas. Seremos, eu e ela, co-rés de um crime não confesso.
Enquanto penso nisso tudo, os sentimentos, meninos-doidos, rodopiam no salão do meu coração. A música agitada do meu batimento cardíaco dita a desdita da sorte das minhas emoções.
Será essa a noite do meu enfartamento? Os sentimentos reivindicam sair de mim. Estourar em minha roupa. Meu zíper não comporta tanta sombra de emoções. Elas vazam. Vão a mim ou vão de mim?
Assim, em aflitismo frenético, deixo a caneta. - Pára, pára, não escreve não! Ora bolas, carambolas, só assim, então, para entender, quase em vão, que as emoções não são para a escrita de um destro escritor, mas para sacudir dentro dessa caixa nada compacta que é o meu coração!
Léa Martins | comentários(2
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18/09/2007
13:54 E que fim terá o Senado Federal?

Mas o que é isso que acontece nessa terra brasilis? De onde vem esse cheiro tão horroroso de despeito e de falta de hombridade? Ao fazer tais perguntas, já me terão dado as tais das respostas: é o resultado da história nascida nos porões dos navios portugueses que aqui atracaram em busca de ouro e ervas e que, em troca, nos deixaram degredados de todas as espécies. E a pior foi a da de corruptos!
Como dizem “o sangue sempre fala mais forte”. E como esse sangue amargo e fedorento tem vencido no grito a honestidade, a lealdade e a justiça! Meleca das melecas residir numa nação que não se respeita! Conviver no mesmo solo com homens abjetos e imorais e amorais, então, ninguém merece! Aff!
Não quero falar de Renan e seus cavaleiros da Távora quadrada e manca! Cansei de falar em coisa inútil. Escrevo este texto só porque escutei uma frase, na verdade, um trecho da música de Renato Russo que diz “Quero a minha nação soberana. Com espaço, nobreza e descanso.”, e isso me trouxe uma saudade de não sei o quê.
Não apostem que foi da soberania dessa nação parida pela fábula inventada por historiadores honestos, mas pueris. Nem foi mesmo por causa do espaço, ou da nobreza e muito menos do descanso. Talvez seja da minha época de escola, quando eu tinha expectativas ideológicas de que o quadro político e social do Brasil mudasse. Eu tinha esperanças. Hoje, não tenho mais.
Hoje, pós-universidade, estou que nem o Cazuza: “querendo uma ideologia para viver”! Entretanto e todavia, já entendi cá com os meus botões virtuais e viajantes que ideologia não é prerrogativa de vida para ninguém, nem para os filósofos de ocasião que cunharam o texto e não sabem aplicá-lo!
Encerro por aqui. Antes, coloco o finalzinho da música de Renato Russo da qual fiz referência:
"Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo
Dai-nos a paz...”
Léa Martins | comentários(1
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17/09/2007
17:50 Imagem não é tudo
Não quero imaginar como um homem me quer. Não preciso disso. Preciso sim, que ele diga o que quer de mim. Chega de adivinhação. Chega de manipulação de desejo. Chega de entregar o prato pronto. Cadê o prazer da descoberta? Abaixo o realizar todos os sonhos dele. Abaixo a prisão do perfecionismo exacerbado tão em uso por homens e mulheres.
Mulher inatingível? Na minha adolescência eu li um romance Júlia com esse título. Era o ideal da mulher perfeita. Loira. Olhos azuis. Corpo escultural. Boca convidativa e o escambau da perfeição. Na época até critiquei a autora de tal impostura. Era superficial demais para ser verdadeira um dia. Mas qual? Ando pelos shoppings da cidade e o que vejo? Mulheres inatingíveis!
Parem o mundo que eu quero planar! É tanta musa, que tenho vergonha de andar entre tais beldades! Parece que ninguém tem enxaqueca, cólica menstrual, espinhas. Todas são senhoras da situação! Eu sei: há uma pressão à surdina para todas nós sermos Giseles Bundchen 24 horas. Mas não dá! Isso não entra no meu juízo mais que imperfeito!
Fico com febre e urticária de tanta modelo padrão de beleza! E nisso me ponho a filosofar: a mulher é produto do meio ou é mero produto de consumo dos homens? Ou ainda: os cosméticos são feitos para ela ou ela para os cosméticos? Tratamento de beleza é necessário ou colocaram a necessidade deles na cabeça das mulheres?
Sei não. Mas parece que vivemos na prisão dos modelos e padrões de beleza. Sobre a ditadura da beleza e estética moderna não quero falar. Outros e outras já falaram, vociferaram e praguejaram por mim!
O incomoda para meu desassossego é que estamos entrando nesse navio sem volta do modelismo delirante das celebridades que não celebram nada! É tudo tão esteticamente perfeito que se perde até a coragem de se buscar algo de novo nesse mundo de ninfas e fadas. Será que em Lesbos eram assim?
Quanto mais falo sobre isso, menos tenho coragem de sair à rua. Eu não... Sair para quê? Para passar vergonha? Submeter-me aos vexames de ser comparada com essas meninas e mulherões último tipo que fazem os homens e as agências de modelos suspirarem? Eu não. Prefiro ficar em casa e deixar que apenas o espelho me recrimine. Só um basta. O mundo, não! Basta.
Léa Martins | comentários(0
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13/09/2007
13:57 Os “mais” de Renan...
Por que será que doutrinas rimam com latrina? Fica fácil responder. Basta observar o que aconteceu em Brasília, mais precisamente no Senado Federal e mais exatamente no caso de Renan Calheiros! É sem-vergonhice acreditar em ética, lisura política e probidade? Pois, a partir de agora, é!
É surreal viver nessa terra batizada de Brasil. É fogo ter políticos como os que temos aqui! Quanto mais abjetos, mais enganadores e mais corruptos, mais poderes têm! Mais entranhados estão nos porões do poder nacional! Fizeram alguma especialização para serem calhordas ou nasceram com esse “dom”?
Hoje observei algumas capas de jornais: “Acabou em pizza...”; “Planalto foi decisivo para impedir cassação”; “Senado contra o povo”; “Vergonha Nacional”, etc. A impressão que essas manchetes passa é que há uma comoção nacional, não é mesmo? Só que é fictícia. Não existe nem de direito, nem de fato e muito menos de justiça. Quer ver? O povo foi para a rua? Houve protestos nas capitais?
Vergonha nacional é a apatia do povo? Vergonha nacional é votar nesses políticos oportunistas? Vergonha nacional são a acomodação e o silêncio dos decentes? O que é vergonha nacional? Por enquanto, apenas capa de jornal!
Vou encerrando por aqui, pois minha vergonha não cabe nessa página, nesse texto, e muito menos em mim! Olho para o céu de azul anil, ele está feio hoje. Cinzento e apavorante. Espero não ser prenuncia do futuro... Léa Martins | comentários(1
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11/09/2007
15:24 Desproporcionais

Nossos sentimentos não são simétricos. São desproporcionais. Tateando para dentro de nos mesmo só enxergamos coisas interrompidas. Que pena! Não somos como cobiçamos. Não somos as expectativas dos outros. Somos tudo. Menos os nossos quereres.
Não há luz da psicologia. Não há auto-ajuda que destrave o ser de ser ele mesmo. Socialmente podemos ser educados. E o somos. Politicamente somos verazes em nossos direitos de sermos corrompidos. E somos. Nossas doutrinas e filosofias auxiliam a extravasar nossa loucura. Mas que pena. Não ficamos mais sadios.
Somos restos de nossos próprios sonhos. Ninguém é completamente realizável. Plenamente dono de si. Vivemos em eterna catarse. O transe coletivo nos rodeia permanentemente, talvez por isso não reagimos. Não peitamos a vida.
Somos desordeiros da ordem. Anarquistas com leis e regras de boa conduta. Somos transgressores das nossas próprias regras. Exigimos liberdade suprimindo a dos outros.
Somos antíteses. Galgamos mundos para descobrir que não fizemos ainda a maior conquista: sermos nós independente dos nós que isso possa gerar na cuca dos demais.
Vivemos na chata dualidade do aprovar/reprovar de nós e dos outros. Tudo que nos inquieta é sinal de pânico.
Estamos tomando restos de xícaras de café usadas por outros. Comemos restos deixados por ratos nos esgotos. Estamos nos escondendo nesse mundo onde tudo é permitido menos viver a verdade de ser quem de fato somos.
Há multidões de espelhos. Há reflexos diversos. Mas o que é refletido, onde pode ser encontrado?
Léa Martins | comentários(0
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06/09/2007
16:57 O último discurso
Sei que em todas as eras vão existir grandes homens, grandes artistas e mentes gigantes de pensamentos avassaladores. Que bom! Pensar assim traz esperança. Tal esperança é semelhante a de Charles Chaplin, no Filme “O Grande Ditador”, cujo DVD assisti recentemente, e no qual, o ator, diretor e dançarino faz um dos discursos mais lindo do mundo.
Ao dizer “Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades”, Chaplin revela certa ingenuidade e fé no homem que há muito não é visto nesse planeta!
Mesmo assim, ele é único ao afirmar “Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos”, pois manifesta aí, um sentimento genuíno e sincero de quem experimentou os reveses da vida e os venceu.
Sei que este discurso tem mais da metade de um século. Entretanto, em época de Hugo Chaves, Evo Morales, Bush, escândalos políticos no Brasil e tragédias humanas coletivas e individuais, nunca será demais relembrá-lo. O posto aqui, a partir de onde não peguei mais citações de Chaplin.
“ O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!”
Dados de O Ditador:
Título Original: The Great Dictator
Gênero: Comédia
Origem/Ano: EUA/1940
Duração: 128 min
Direção: Charles Chaplin
Elenco:
Charles Chaplin...
Jack Oakie...
Jack Oakie...
Reginald Gardiner...
Henry Daniell...
Billy Gilbert...
Grace Hayle...
Carter DeHaven...
Paulette Goddard...
Prêmios: Indicado para Melhor Ator, Melhor Música, Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original. Associação dos Críticos de Nova York 1940 - Vencedor de Melhor Ator.
Léa Martins | comentários(1
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03/09/2007
15:18 Ocaso virtual
O sujeito oculto da frase ainda não chegou. A dona do pronome feminino pelo contrário, já ocupou o seu espaço devido e agora escuta um blue americano. Ela pensa nele. Entre ziguezagues ele se enfurna na rua e parece não querer mais sair.
Não é submundo. Nem é caso desencontrado. É uma história. Como tantas que já existem e que ninguém quis perder tempo para contar. Eles têm um romance é o que importa. É um caso sério com as palavras. Por isso ele fica sempre na rua, à cata de alimento que traz para casa. Ela não é do lar. É mulher preparada na tábua da feminilidade. Mas toda a sua intrepidez está no vocábulo fora do contexto.
E quando os dois se encontram é som de metal. Cada um tem letra e música para compor as alegrias do momento a sós. Eles são doces doidos. E nesse ensaio de busca e perda que é a vida, se entendem muito bem.
Gosto de vê-los juntos. Conversando eles vão filosofando e compondo versos magníficos. As risadas de cada piada que fazem com o ocaso enchem a vizinhança de vida. Ninguém se importa com o barulho.
Eles vão se amando como quem não tem pressa. Eles gostam de olhar um o olho do outro. Mesmo com o de vez em quando da panela vazia, o estômago da alma deles encontra-se sempre cheio.
Esse é um romance contemporâneo. Eu gosto de observá-los. São um casal virtual com virtudes do real. Sem crises. Sem brigas. Apenas muito e muita conversa. Falam de coisas. Falam de gente. Falam humanamente. Eles são gente boa.
Léa Martins | comentários(3
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